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Convescote: Gaeco intercepta conversa entre acusada e suposto “deputado”

Convescote: Gaeco intercepta conversa entre acusada e suposto “deputado”

Número interceptado em conversa é de empresa de familiares de Ondanir Bortolini, o “Nininho”

Interceptações telefônicas realizadas pelo Gaeco registraram um telefonema entre Jocilene Rodrigues de Assunção, que é investigada na Operação Convescote, e um interlocutor chamado por ela de “deputado”.

As escutas foram autorizadas pela juíza Selma Arruda, da Vara Contra o Crime Organizado da Capital, e realizadas pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco).

A operação apura o suposto desvio de mais de R$ 3 milhões dos cofres públicos, por meio de convênios firmados entre a Fundação de Apoio ao Ensino Superior Público Estadual (Faespe) com a Assembleia, Tribunal de Contas do Estado (TCE), Secretaria de Estado de Infraestrutura (Sinfra) e Prefeitura de Rondonópolis (212 km ao Sul de Cuiabá).

Jocilene Assunção chegou a ser presa em 20 de junho, mas foi colocada em prisão domiciliar para cuidar de sua filha pequena.

De acordo com o Gaeco, a ligação feita por Jocilene, no dia 3 de agosto de 2016, teve como interlocutor um número de celular cadastrado em nome da Construtora Deterra Ltda.

Conforme apurou a reportagem, a construtora tem como sócios o empresário Fausto Presotto Bortolini, filho do deputado estadual Ondanir Bortolini (PSD), o “Nininho”, segundo-secretário da Assembleia Legislativa, e a empresária Valéria Carvalho da Silva Bortolini, que também é parente do parlamentar.

O relatório, contudo, não afirma qual é o deputado que manteve a conversa com Jocilene, nem se realmente foi um parlamentar.

A conversa

Segundo o relatório, Jocilene Assunção afirmou, na conversa, que precisava fazer uma visita ao interlocutor, que ela chamou de deputado.

Em resposta, o alegado deputado disse que Jocilene “não o convida para vê-la”.

“Jocilene fala que nesses dias até pensou em chamar o deputado para tomar um café; deputado fala que se tivesse chamado teria ido”, diz trecho do documento.

Logo após, a investigada pergunta se o deputado estaria aí [possivelmente se referindo à Assembleia, conforme o Gaeco] no dia seguinte, sendo que o deputado responde que sim.

“Jocilene fala que vai passar aí de manhã, que o Charles marcou para estar no local às 09h30 (provavelmente, referindo-se a uma reunião com o deputado) e pergunta qual horário o deputado chega ao local. Em resposta, o deputado fala que chega às 08h00 da manhã”, diz outro trecho.

O “Charles” mencionado na conversa seria o ex-secretário-geral da Assembelia, Tschales Tchá, que é ligado ao deputado Nininho.

“Jocilene diz que vai passar antes (do horário agendado por Charles) para falar pessoalmente com o deputado. Após combinarem encontro para o dia seguinte, Jocilene finaliza a conversa com o deputado”, segundo consta no relatório.

No dia seguinte ao telefonema, um homem não identificado ligou de um telefone da presidência da Assembleia Legislativa e perguntou se Jocilene já estava no local.

“Jocilene responde que sim, que está na secretaria geral. HNI [homem não identificado] chamado de Joeli diz se é possível Jocilene passar na presidência ou HNI ir ao encontro de Jocilene para conversarem. Jocilene fala que HNI pode aguardar ela (Jocilene) aqui (provavelmente, referindo-se à secretaria geral) que está prestes a sair e conversa com HNI, o qual concorda com Jocilene, finalizando a conversa”,

Seis dias depois, em 10 de agosto de 2016, outra conversa telefônica mostrou Jocilene dizendo para Lázaro – possivelmente Lázaro Romualdo Gonçalves de Amorim, servidor da Faespe e conduzido coercitivamente na operação –  que o da “AL” irá cair na conta amanhã, “possivelmente, referindo-se à Assembleia Legislativa”.

“Jocilene convoca Lazaro para estar na Faespe também na manhã do dia seguinte. Jocilene explica que conversou anteriormente com Neto e Hallan para estarem no mesmo horário para juntar todos os processos (provavelmente da Assembleia). Lazaro fala que os processos estão todos prontos, as capas, os RPAs, só faltando o relatório da sonegação que Neto foi buscar hoje, porém Barbara informou que o deputado ainda não havia assinado”, consta no documento.

Já no dia 15 de agosto, Jocilene e o deputado marcam um horário para uma reunião à tarde”.

Jocilene: “Ah, você que me ligou”.

Deputado: “Viu, organiza para quatro e meia”.

Jocilene: “Ta bom, vou ver se eu consigo, aí eu te aviso tá bom?”.

Deputado: “Organiza sim que é melhor hoje”.

 

Outro lado

A redação tentou por várias vezes, mas não conseguiu entrar em contato com o deputado Ondanir Bortolini. O número que consta no relatório também não teve as ligações atendidas ou retornadas.

A assessoria de imprensa do parlamentar afirmou que, por ora, ele não irá se manifestar sobre a operação.

Veja fac-símile de trecho da interceptação:

O esquema

De acordo com o Gaeco, os alvos da primeira fase da Convescote, deflagrada no último dia 20, desviaram mais de R$ 3 milhões dos cofres públicos.

O esquema de desvios de recursos, segundo as investigações, era viabilizado pelos pagamentos que órgãos como a Assembleia Legislativa, Tribunal de Contas, além da Secretaria de Infraestrutura (Sinfra) e Prefeitura de Rondonópolis, faziam por meio de convênios com a Faespe para prestação de serviços diversos.

A Faespe, por sua vez, subcontratava empresas (algumas delas “fantasmas”), cujos serviços eram pagos com dinheiro público.

Porém, conforme o Gaeco, quem atesta as notas fiscais dos mencionados “serviços” era um funcionário da própria Faespe e não um servidor público escalado para fiscalizar e supervisionar citados convênios.
Foram alvo de mandados de prisão preventiva: Claudio Roberto Borges Sassioto, Marcos Moreno Miranda, Luiz Benvenuti Castelo Branco de Oliveira, Jose Carias da Silva Neto Neto, Karinny Emanuelle Campos Muzzi de Oliveira (que conseguiu prisão domiciliar), João Paulo Silva Queiroz, José Antônio Pita Sassioto, Hallan Goncalves de Freitas, Marcos Jose da Silva, Jocilene Rodrigues de Assunção e Eder Gomes de Moura.

Dos presos, quatro já conseguiram deixar a cadeia. Karinny Emanuelle Campos Muzzi de Oliveira, Jocilene Rodrigues de Assunção e Marcos Moreno Miranda tiveram as prisões preventivas convertidas em domiciliares, por decisão da juíza Selma Arruda, da Vara Contra o Crime Organizado da Capital.

Já João Paulo Silva Queiroz conseguiu liberdade com tornozeleira eletrônica, também por decisão da magistrada.

Na 2ª fase da operação, foram alvos das buscas e conduções: Elizabeth Aparecida Ugolini (funcionária do Sicoob); Odenil Rodrigues de Almeida (assessor do deputado Guilherme Maluf); Tscharles Franciel Tschá (ex-secretário-geral da Assembleia); Eneias Viegas da Silva (diretor financeiro do Tribunal de Contas do Estado); Fabricio Ribeiro Nunes Domingues; Alysson Sander Souza (ex-adjunto de Infraestrutura da antiga Secopa); Marcelo Catalano Correa (servidor do TCE); Nerci Adriano Denardi (ex-comandante geral da PM); Drieli Azeredo Ribas (ex-servidora da Assembleia); Maurício Marques Junior (servidor do TCE); Sued Luz (assessor do deputado Guilherme Maluf); e Alison Luiz Bernardi (coronel da PM).

 

Rádio Tangará com Mídia News