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CUIABÁ, 296 ANOS: "Cidade não é mais colônia, mas ainda não virou metrópole"
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CUIABÁ, 296 ANOS: "Cidade não é mais colônia, mas ainda não virou metrópole"

by newsmtabril 8, 2015

Historiador Moisés Martins diz que história, cultura e urbanismo são marcados pela forte presença do rio e pela antiga Prainha

“Cuiabá da Prainha/ Cuiabá do Mundéu/ andorinhas belas riscando o céu/ com cores de luz, tons azuis!/A Capital Verde do Senhor Bom Jesus!/ Cuiabá sonho sonhado/ Ouro no solo agasalhado/ Capital do rasqueado!/ Migrantes aqui vieram/ em busca do Eldorado/ que juntando com os daqui/ realizarão o sonho sonhado!/ Por isso, Cuiabá é universal! /Solo de todas as crenças e raças!/ Da Amazônia, o portal/ que deixou de sonho ser/ na realidade do viver!”

O poema “Capital Verde de Esperança”, do cirurgião-dentista, poeta e cuiabano de coração Moisés Martins, musicado por Escuma, traduz a capital mato-grossense nas comemorações, nesta quarta-feira (8), dos seus 296 anos de fundação.

Segundo ele, uma cidade que nasceu com  profundas raízes culturais e que vive hoje o turbilhão do desenvolvimento, ao mesmo tempo em que busca uma identidade própria.

Para Moisés Martins, em nenhum momento dessa trajetória, se pode perder de vista que Cuiabá é uma cidade eminentemente ribeirinha. No entender do poeta, esse é um marco que influenciou e influencia a cidade até hoje.

Bruno Cidade/MidiaNews

“Nos seus primórdios, Cuiabá tinha um DNA de intelectualidade”

Situada na margem esquerda do rio Cuiabá, a cidade viveu vários ciclos e agora vive mais um.

A começar pelos bandeirantes, que fundaram o Arraial da Forquilha, na foz do Coxipó-Açú, agora São Gonçalo Beira-Rio.

Depois, com o surgimento, na orla da Prainha, da Vila Real do Bom Jesus de Cuiabá , auge do ciclo do ouro, até os dias de hoje, passando pela vinda dos migrantes de todos os cantos do pais.

Toda a história, a cultura e o urbanismo da cidade são marcados pela forte presença do rio e pela antiga Prainha, antes navegável e espinha dorsal da cidade.

“Nos seus primórdios, Cuiabá tinha um DNA de intelectualidade. Quando Monteiro Lobato esteve por aqui [em novembro de 1936], ficou extasiado pelo fato de encontrar 24 pianos austríacos na cidade, vindos da Europa, por meio do Porto de Santos. Sem falar da época dos saraus dançantes, do Cine Teatro Cuiabá e dos clubes Dom Bosco e Feminio, diversão dos jovens, assim como os passeios na Praça da Alencastro”, relembra o historiador.

Para Moisés Martins, a começar pelo urbanismo, influenciado pelo crescimento desordenado e remodelagens urbanísticas incompatíveis com estrutura sui generis da cidade ribeirinha, e problemas em várias áreas, Cuiabá perdeu um pouco desse ar colonial, que deveria ter sido preservado em seus casarões antigos, ao mesmo tempo em que trabalhasse o seu crescimento como cidade, cumprindo o seu papel de Portal da Amazônia.

“No inicio do seu desenvolvimento, Cuiabá viveu, em grande parte, um isolamento em relação aos grandes centros, em função da precariedade das estradas da época. Esse obstáculo impedia a cidade de acompanhar o resto do pais, mas, ao mesmo tempo, fez com que fosse preservado um pouco do seu perfil, da sua cultura, sua maneira peculiar de falar, da sua gastronomia, manifestações surgidas da mistura entre dos índios, negros, portugueses”, diz.

Para o poeta, tudo tem seu preço. “Cuiabá, ganhou e perdeu, e no futuro terá que buscar sua identidade própria. Hoje, Cuiabá não é mais aquela cidade colonial e nem a metrópole que deveria ser e que, na verdade, está longe de ser”, afirma.

Moisés Martins defende um resgate da cuiabania, termo regional criado pelo poeta Benedito Sant’Ana da Silva Freira e que significa, segundo a sociedade local, a definição de sua identidade e cultura.

Em sua obra “Do Cerrado, Pantanal ao Cosmo; um Passeio Poético!” (2008): Martins assinala; “A cuiabanidade não é decodificada somente pelo fato de haver nascido em Cuiabá, mas sim, e muito mais, pelo viver, sonhar e amar, Cuiabá… é ter coragem cívica de não aceitar a descaracterização da nossa cultura, tão frágil nesse momento… é buscar aprisionar, nem que seja em fotografias amarelecidas pelo tempo, o rescaldo da nossa memória histórica.”

FONTE: MARIA BARBANT/MÍDIA NEWS
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