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Eraí Maggi, "rei da soja", declara voto em Dilma Rousseff
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Eraí Maggi, "rei da soja", declara voto em Dilma Rousseff

by newsmtagosto 13, 2014

Maior sojicultor do mundo lista a BR-163 e a questão fundiária como razões da escolha

Soja e eleições. São esses os dois assuntos que atualmente não saem da cabeça de Eraí Maggi. Ele se apresenta como maior produtor de soja do mundo e é assim que outros grandes sojicultores do Mato Grosso o definem. Neste ano, Maggi também é o maior cabo eleitoral da presidente Dilma Rousseff (PT) no bilionário setor do agronegócio no Estado.

Primo de Blairo Maggi, ex-governador do Mato Grosso e atual senador pelo PR, Eraí Maggi nunca teve cargo eletivo, mas partilha com o primo o gosto pela política. Apoiou as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma e agora diz estar trabalhando pela reeleição da presidente. Ele é filiado ao PP.

No Estado que é o centro do agronegócio do país e onde estão todas suas plantações, Eraí Maggi nada contra a corrente. Lula venceu José Serra (PSDB) em 2002, mas perdeu em 2006 para Geraldo Alckmin (PSDB). Dilma perdeu em 2010 para Serra.

“A infraestrutura, a biotecnologia, a questão fundiária, as condições para aquisição de máquinas, tudo melhorou. Eu estou com a Dilma porque, até que enfim, as coisas estão acontecendo”

Em maio, numa pequena amostra do ânimo dos ruralistas em relação ao governo, Dilma foi vaiada três vezes, num evento agropecuário em Uberaba (MG) que reuniu empresários de diferentes pontos do país. Entre os problemas atribuídos aos governos do PT, de Lula e Dilma, estão o que classificam como insegurança jurídica no campo relacionada a demarcações de terras indígenas, ao Código Florestal (que ainda não foi regulamentado) e à infraestrutura precária que encarece o escoamento da produção.

No Mato Grosso, como nas eleições anteriores, a preferência pelos tucanos parece se repetir neste ano. Entre os empresários do agronegócio, em particular, a opção pelo senador Aécio Neves (PSDB-MG) é majoritária, segundo outros produtores rurais com quem a reportagem conversou em Cuiabá na última semana de julho.

Um deles disse que Maggi fala praticamente sozinho ao defender o governo Dilma no agronegócio mato-grossense.

Mas aos 55 anos – mais de 40 deles em meio a lavouras -, Eraí Maggi diz que está começando a se reunir com pessoas do setor para defender o voto na presidente petista e mudanças que, segundo ele, favoreceram o campo.

“Estamos trabalhando, mostrando como era o agronegócio lá atrás e como é agora. Tudo o que está acontecendo”, diz Maggi, que concedeu entrevista ao Valor em quatro etapas, pessoalmente e por telefone, entre o fim de julho e início de agosto. “O Brasil é uma potência. A economia tem alguns problemas, mas a gente tem que ter otimismo.”

Sua rotina como cabo eleitoral está ainda se estruturando, afirma. “Estamos nos reunindo com grupos. Tem uma associação com quem a gente está conversando. Está começando agora.”

Maggi lista os argumentos pró-Dilma. “A infraestrutura, a biotecnologia, a questão fundiária, as condições para aquisição de máquinas, tudo melhorou. Eu estou com a Dilma porque, até que enfim, as coisas estão acontecendo. A BR 163 está 80% concluída. Tem um monte de empreiteiras trabalhando lá. Nem parece o Brasil”, afirma.

Sua produção de soja, algodão, milho e outras culturas é escoada por caminhão até os portos de Santos e Paranaguá. Parte de trem, pelo porto Vitória, e pelas hidrovias de Porto Velho e Santarém. Maggi se entusiasma com a finalização da pavimentação da BR 163, que é vista por produtores do Centro-Oeste como uma opção decente e muito mais prática para a exportação para a Ásia.

“Isso vai ajudar o pessoal do Sul. Hoje, a produção daqui, escoada por lá, transforma aqueles portos num gargalo. Até que fim a BR 163 está quase pronta. Ficaram 40 anos falando nisso.”

A ferrovia que liga Santos a Rondonópolis (MT) – inaugurada neste ano com a presença de Dilma – e as obras de pavimentação da BR 158 e da BR 80 são outros pontos que reforçam os argumentos pró-Dilma.

Tony Ribeiro/MidiaNews

Maggi comanda, ao lado de seus irmãos Elusmar e Fernando e do cunhando José Maria Bortoli, o Grupo Bom Futuro. Entre 2013 e este ano, plantaram 255 mil hectares. No plantio de 2014/2015, o plano é cultivar uma área de 264 mil hectares.

O plantio de soja começa entre setembro e outubro, quando as campanhas estiverem pegando fogo. Maggi já vive com um pé na política e outro no campo e nos dois próximos meses os dois assuntos devem ocupar ainda mais seus dias.

Eraí Maggi Scheffer (ele é mais conhecido pelo sobrenome da mãe) é gaúcho de Torres e cresceu na roça, num sítio da família em São Miguel do Iguaçu, no oeste paranaense. Foi frequentar escola só a partir dos nove anos. Após a morte do pai, nos anos 70, migrou para o Mato Grosso, na época em que o Estado era ainda uma grande área inóspita, sem estradas nem energia elétrica.

Ele e os irmãos começavam então a construir o que é hoje a Bom Futuro: um grupo com cinco mil funcionários, 80 fazendas, 100 mil cabeças de gado, cerca de 100 mil hectares de milho e mais de 80 mil hectares de algodão. Além da área de soja e de outras atividades, entre elas a piscicultura, são 470 mil hectares. A empresa se apresenta como proprietária de 6% da área de plantio do Brasil.

A Bom Futuro também está na produção de energia, por meio de pequenas centrais hidrelétricas, e no setor de transporte, com caminhões. Ele conta que recursos para investimentos vem do caixa próprio e de empréstimos de bancos privados e públicos. É um leque mais variado do que o da maioria dos produtores do Mato Grosso, que custeia plantações basicamente com recursos do Banco do Brasil.

O faturamento no ano passado foi de R$ 1,57 bilhão. Neste ano, a depender dos preços, Maggi, espera um resultado semelhante. “Aqui, no Mato Grosso, ser grande não é novidade. Em qualquer outro lugar do mundo, as lavouras são menores”, diz ele.

Se tem algum outro empresário no planeta que tenha tanta área de soja quanto ele? “Lá fora não tem, não. Soja, algodão, milho, semente. A liderança é nossa. Somos o principal do mundo também em boi em confinamento.”

“Não tive conversas com outros candidatos. Não vi as propostas e não vi esse carinho pelo Mato Grosso e com o agronegócio que eu estou vendo nesse governo”

Na quarta-feira, 30 de julho, em Cuiabá, Eraí Maggi não se parecia em nada com um magnata do campo. Com jeans batido, sapatênis, camisa para fora da calça e celular na mão, ele circulava pelo comitê de campanha do candidato a governador do Mato Grosso, o senador Pedro Taques (PDT). Era dia de apresentação do novo candidato a senador na chapa da Taques, Rogério Salles, que também é ligado ao agronegócio. Maggi apoia Taques e participou das discussões que levaram ao nome de Salles. E no evento passou algumas boas horas em conversas com políticos e outros empresários, entre tapinhas nas costas e apertos de mão.

O fato de apoiar Pedro Taques e não o candidato do PT, Lúdio Cabral, ao governador do Estado, não é uma contradição. “A gente conversou sobre isso. O nosso candidato aqui a governo sabe que nós estamos trabalhando para a presidente Dilma, sem problema nenhum.”

O partido de Taques, o PDT, é da base de Dilma no Congresso. Ele, no entanto, defende o voto no candidato de oposição, o senador Aécio Neves (PSDB).

Maggi já chegou a fazer planos para se candidatar a governador. Neste ano, entre políticos no Mato Grosso, seu nome voltou a ser cogitado. “Não estou mexendo com isso, não. Sou só apoiador”, desconversa.

O primo, o senador Blairo Maggi, diz que não vai participar da campanha no Mato Grosso. “Minha atividade vai ser em prol da presidente. Defendo a tese da continuidade do governo dela em função do que recebemos e do que podemos receber de um governo que pôs na sua pauta temas de interesse do agronegócio”, afirma Blairo Maggi. “Agora, eu não tenho nenhum papel na campanha.”

Em parte por sua personalidade expansiva e também por estar mais perto do pessoal do agronegócio do que o primo de Brasília, Eraí Maggi parece mais ativo do que ele no corpo a corpo pró-Dilma.

E o que motiva um empresário do tamanho de Maggi a adotar uma posição de militante de um governo cujo setor do qual faz parte vê com resistência?

“Sou ligado ao PP, partido da base de Dilma. E vivo em Brasília, discutindo infraestrutura, logística, liberação de moléculas [de inseticidas e fungicidas] para as plantações no Mato Grosso, questões envolvendo terras indígenas. E quero que o governo continue e acelere projetos de infraestrutura.”

Sua militância, diz ele, tem a ver com seu jeito de já há muito tempo não ficar olhando só para sua empresa, mas de se envolver com mutirões, associativismo, com lobby e colaboração em projetos de governos. Maggi não tem cargo na Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), a influente e abonada entidade que reúne cinco mil fazendeiros no Estado. Mas sua presença é decisiva.

Diz que mantém um diálogo constante com o governo Dilma, via Aprosoja, via a associação dos produtores de algodão e outras entidades. Em seu smartphone, ele tem arquivado uma foto em que está junto com ela.

Tony Ribeiro/MidiaNews

Na semana passada, num evento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Dilma falou do que considerou avanços em sua gestão e em aumentar investimentos num segundo mandato. Aécio prometeu criar um “superministério” da agricultura com mais autonomia para políticas na área de logística e infraestrutura.

Eduardo Campos defendeu a importância em equilibrar agricultura familiar, agronegócio e questões ambientais e defendeu que a meta é garantir alimentos de qualidades e baratos ao país.

Maggi diz ter pouco interesse nos candidatos da oposição: “Não tive conversas com outros candidatos. Não vi as propostas e não vi esse carinho pelo Mato Grosso e com o agronegócio que eu estou vendo nesse governo.”

Perguntado se fará doações à campanha de Dilma, o empresário, porém, desconversa. “Estamos discutindo. Está começando agora.”

MARCOS DE MOURA E SOUZA
DO VALOR ECONÔMICO

 

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