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Hospital afasta especialista porque mães gritam demais:
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Hospital afasta especialista porque mães gritam demais:

by Radio Tangarámaio 19, 2016
O Doutor especialista em parto humanizado, Victor Rodrigues.

O Doutor especialista em parto humanizado, Victor Rodrigues.

O especialista em partos humanizados, Victor Rodrigues, foi comunicado na semana passada que não poderia mais atender suas pacientes no Hospital São Mateus, em Cuiabá, porque elas gritavam demais durante os procedimentos e estariam incomodando os outros pacientes.

Ele informou que recebeu apenas uma ligação da gestão dio hospital, sem qualquer tipo de aviso prévio, de que simplesmente não poderia mais realizar seus atendimentos no local.

“Eles me ligaram e pediram para que não internasse mais meus pacientes lá. Não fui chamado para nenhuma reunião, nem recebi nenhum prazo para que eu me organizasse. Simplesmente pediram para que eu parasse de internar meus pacientes de parto humanizado”, contou.

Segundo o médico, a gestão da unidade médica alegou que o hospital não tem “estrutura” para atender, uma vez que as pacientes gritavam demais na hora do parto e estavam incomodando os pacientes, que, inclusieve, havia diversas reclamações na ouvidoria da unidade a respeito do fato.

“É normal as pacientes gritarem. Elas estão fazendo força para o bebê nascer. Já existia por parte do hospital toda uma assistência clara ao parto, no sentido de garantir o atendimento humanizado. Dentro desse atendimento, deixava livre o trabalho de parto, incluindo que, obviamente, se a paciente gritar, não cometer violência obstétrica de calá-la. Afinal, é um momento importante e delicado na vida de uma mulher. É importante não usarmos intervenção de analgesia ou anestesia. Então é normal que elas gritem, porque dói”, afirmou.

Victor interna suas pacientes no hospital há 15 anos. Além do hospital São Matheus ele também atende na Clínica Femina e no Hospital Santa Rosa.

Victor interna suas pacientes no hospital há 15 anos. Além do hospital São Matheus ele também atende na Clínica Femina e no Hospital Santa Rosa.

Rodrigues interna suas pacientes no hospital há 15 anos. Além do São Matheus, ele também atende na Clínica Femina e no Santa Rosa. Porém o especialista diz que a atitude da gestão da unidade o prejudicou. Ele afirma que atitude do hospital é um retrocesso no atendimento médico.

“No mundo de hoje as pessoas estão em busca de partos normais. O que mais vemos são mulheres discutindo a respeito de parto humanizado. E isso que o hospital está fazendo demonstra claramente que a unidade está indo contra a corrente. É um retrocesso. Eu me senti prejudicado, porque moro em frente ao hospital e não recebi qualquer tipo de aviso. O meu consultório ficava lá, então logisticamente era mais fácil pra mim”, disse.

Normal x humanizado

A diferença entre um parto normal e humanizado é simplesmente na mudança de atitude: respeitar os desejos das mulheres.

No parto humanizado toda a fisiologia do nascimento é honrada, onde é preparado todo o emocional da mulher para o parto.  O atendimento é todo centrado na mulher, que tem liberdade de escolher a maneira que o processo é conduzido, podendo desfrutar da companhia da família, caminhar, tomar banho de chuveiro ou banheira para aliviar as dores. As intervenções de medicamento, aceleração do parto ou mesmo o tradicional corte vaginal acontece somente quando é estritamente necessário.

Já no parto normal, a mãe tem que ficar deitada todo o tempo durante o trabalho. A mulher não pode andar e muitas vezes têm que ficar sozinha durante o processo. Além disso, na maioria das vezes, o parto é induzido através do soro que acelera o processo.

A recuperação no parto natural oferece uma recuperação mais rápida, tanto para a mãe quanto para o bebê sem risco de aspirar líquido e também infecções.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o número de nascimentos por parto normal ainda está muito abaixo do recomendado, que estipula uma média de 15% de cesáreas.

Apoio das pacientes

Indignadas e se sentindo muito ofendidas com a atitude do Hospital São Mateus, as pacientes do médico fizeram uma campanha nas redes sociais, onde gravaram um vídeo agradecendo Victor pelo atendimento e dedicação a elas.

Com a hashtag #EuApoioDrVictorRodrigues, as mães fizeram várias declarações demonstrando sua gratidão ao obstetra.

“#‎EuApoioDrVictorRodrigues e repudio esse sistema hospitalar que tenta calar a nossa voz e o nosso corpo em razão de lucros financeiros. Doutor Victor, muito obrigada pela acolhida em minha 38ª semana de gestação, busquei um parto digno e alcançamos”, diz um comentário.

“Parto normal não é rentável pra nenhum hospital. Não querem as índias parideiras incomodando seus pacientes. No parto tem grito, tem dor, mas também tem suspiros e tem amor #‎EuApoioDrVictorRodrigues”, diz outra.

Rodrigues afirma que toda a repercussão do assunto na mídia se deu porque realmente as pacientes se sentiram ofendidas.

“É revoltante, porque falam que simplesmente as pacientes não vão poder mais ser atendidas no hospital, porque elas são o problema. Aí você para e pensa: mas o hospital não é para pacientes? O hospital tem o nome de maternidade, é no mínimo controverso”, explicou.

Outro lado

Através de nota, o Hospital São Matheus informou que não tem ambiente apropriado para atender pacientes que queiram realizar parto humanizado.

Segundo o hospital, atualmente os partos humanizados estavam sendo feitos no quarto, o que coloca em risco a segurança da mãe quanto do recém-nascido.

Os partos normais e cesarianas estão sendo realizados normalmente no centro cirúrgico pela entidade hospitalar.

Confira a nota na íntegra:

O Hospital e Maternidade São Mateus esclarece que não tem ambiente apropriado para realizar partos humanizados, atualmente tem sido praticado no quarto, o que pela falta de estrutura hoje coloca em risco a segurança da mãe e do recém nascido.

Os partos humanizados exigem todo um ambiente preparado conforme normas do Ministério da Saúde.

Os partos normais e cesarianas estão sendo realizados no centro cirúrgico normalmente pela entidade hospitalar.

Ressaltamos que Cuiabá possui outras três instituições hospitalares devidamente equipadas para atender esse tipo de parto.

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